A Missa de Alcaçus foi composta em 1996 para a celebração dos 30 anos de atividades do Madrigal da Escola de Música da UFRN, o coro mais antigo em atividades no estado do Rio Grande do Norte.
A Missa foi idealizada como um conjunto de movimentos em estilos diferentes, de maneira a sintetizar, de forma prática, a maioria das influências que tive em meu trabalho recente como compositor. Estas influências remontam desde o cantochão medieval, passando pelas organa de Notre Dame, Palestrina, Bach e Mozart (encontrados no tratamento dado às vozes, orquestração, contraponto e harmonia), aos elementos oriundos da tradição cultural popular, notadamente dos cantadores, romanceiras, vaqueiros, rabequeiros e repentistas (presentes em padrões rítmicos, escalas e modos). Esses elementos foram manipulados em uma linguagem erudita que inclui, além do aparato vocal de duas a oito vozes, uma orquestração baseada em um conjunto de cordas com percussão e um grupo de solistas que combina um soprano, um barítono e um violão.
A Missa apresenta o ordinário da missa católica (Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei), cantados em latim. Com exceção do Kyrie e do Agnus Dei (primeiro e último movimentos), todas as partes foram divididas em vários movimentos, cada um deles apresentando um tratamento particular em termos de estilo e estrutura. Este procedimento me permitiu estabelecer duas diretrizes no processo composicional: Primeiro, a criação das diversas partes pode ser feita fora da seqüência textual, de acordo com minha conveniência de tempo e inspiração (o que foi especialmente importante, uma vez que dispunha de pouco mais de quatro meses para completar a obra, em uma época em que viajava freqüentemente), e segundo, já que estava trabalhando em uma composição essencialmente heterogênea, eu pude experimentar algumas sobreposições texturais, combinando simultaneamente elementos de natureza diferente, como um contraponto modal para as vozes e um acompanhamento orquestral baseado numa rítmica popular (como ocorre no Cum Sancto Spiritu, por exemplo). Esse tipo de procedimento tornou-se bem característico em outras obras recentes minhas, como na Sinfonia (2002). Um dos mais importantes elementos de coerência em termos de estrutura formal é o uso de um conjunto de peças oriundas da tradição ibérica, trazidas para o nordeste do Brasil pelo colonizador português e transmitidas oralmente de mãe para filha por várias gerações, os Romances, melodias cantadas por voz solo (geralmente feminina), que falam de tempos antigos e terras distantes, castelos, cavaleiros, traições, quase sempre concluindo tragicamente com a morte de alguém. Compostos de uma linha melódica simples com uma harmonia subjacente igualmente simples, os elementos dessas canções aparecem como referências em algumas partes da estrutura contrapontística da Missa como uma espécie de assinatura em filigrana, que usei, além de outros elementos originais, de maneira a obter um nível de coerência pessoalmente mais satisfatório dentro de uma composição heterogênea como essa (muito embora esse procedimento particular seja praticamente imperceptível para o ouvinte).
O título da missa, Alcaçus, veio da pequena localidade litorânea, próxima a Natal, onde os romances foram coletados. Este trabalho foi feito pelo antropólogo Deífilo Gurgel, que publicou um pequeno volume chamado “Romanceiro de Alcaçus”, que traz a notação musical dos romances. Eu tomei a liberdade de utilizar esta música para render uma homenagem tanto ao professor Gurgel quanto àquelas senhoras que cantaram os romances para ele.
Danilo Guanais
30 de junho de 2003
Natal, RN, Brasil
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